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Olá prezados amigos!!!

Por favor, me perdoem pelo sumiço... é que tive que me dedicar a outra atividade e fiquei realmente sem tempo de postar nova msg e até mesmo de responder às suas mensagens. Estou realmente muito feliz de ver que vocês não me esqueceram. Durante esta ausência, coletei muitas outras histórias no Hospital, que prometo publicar neste final de semana. Ah, e prometo também responder as mensagens que vocês me deixaram.

Um grande abraço à todos,

E até o fim de semana!!!!!!



Escrito por Urick Mattos às 01h21 AM
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O bêbado e a equilibrista...

Era mais um ensolarado dia comum . Eu estava na porta do Pronto Socorro Adulto observando um 'Acolhedor' quando chegou uma senhora esbaforida:

- Ei mocinhos... mocinhos, me ajudem... por favor... preciso de uma cadeira de rodas...

- Procure se acalmar, minha senhora, diga-nos o que foi que houve?

- Estou com um rapaz no carro com o pé quebrado, ele não pode andar, preciso de uma cadeira de rodas...

- Ok, fique tranqüila, eu vou buscar uma cadeira e já o levaremos até o ortopedista.

Enquanto o 'Acolhedor' providenciava uma cadeira de rodas, eu dei uma olhada no paciente e vi que ele usava um macacão, tipo de mecânico. A sua acompanhante me explicou que caíra uma peça pesada no seu pé. Mas só quando o 'Acolhedor' voltou e ajudou o paciente a sair do carro é que eu vi, ou melhor, senti o cheiro de cachaça do sujeito!     Não é à toa que se acidentou... estava mangüaçado!!!   

Enquanto o 'Acolhedor' providenciou a abertura da ficha de atendimento e levou o paciente até a sala de Ortopedia, a acompanhante disse que ia guardar o carro e... desapareceu! Sumiu! Escafedeu-se!

Na porta do consultório, o paciente já começou:

- Moço, eu vou tomar injeção?

- Não sei. Por quê? Não vai me dizer que você tem medo?!?

- Buáááá.... eu não quero injeção... buááááá...

- Ora, não chore... procure pensar pelo lado positivo: pelo menos a sua dor vai passar!

O ortopedista examinou o paciente e solicitou uma radiografia do pé. O 'Acolhedor' levou-o até o setor de Raio-X e deixou-o sob os cuidados de outra 'Acolhedora'. Daí o paciente recomeçou:

- Buáááá... buáááá... eu tô com medo... buáááá... é aqui que vão me dar injeção!

- Calma sr. Joselito, eu te garanto que aqui nesta sala ninguém vai te dar injeção.

- Então... snif... o que vão fazer comigo aí dentro?

- Vão apenas tirar uma radiografia para ver como está o seu pé.

- Buááá... vai doer... buáááá!

- Calma, calma, o senhor nunca tirou um raio-x?? Não dói não.

- Snif... mas vão mexer no meu pé e vai doer!

- Os funcionários são cuidadosos! Farão de tudo para que doa o menos possível.

- Você está me enganando!!! Vai ter injeção!!! Buááááá...

Nesse meio tempo, chamaram o paciente e fizeram os exames. Ele saiu bem mais tranquilo e falou para a 'Acolhedora':

- Olha... moça... você tinha razão. Não doeu nadinha! Eu fui injusto com você.

- Que nada, meu senhor, tudo bem.

- Não, eu fui muito injusto. Você foi muito boazinha comigo.

- Ora, ora, eu estou aqui é para ajudar e ser boazinha, não é verdade?

- Bom... então... já que você é tão boazinha, que tal me dar o seu telefone?!?

-  !!!

Não é fácil, não. É cada uma que acontece, né?!? Acho que eu vou começar a chamar esta 'Acolhedora' de equilibrista, pois é preciso ter muito jogo de cintura para sair destas situações. Você não acha?!?


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Escrito por Urick Mattos às 12h02 AM
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A Invasão dos Adolescentes

Mal tínhamos nos recuperado do episódio do 'Remelinha'  e, desta vez, um adolescente de 17 anos chegou ao Pronto Socorro trazido pelos seus professores. Ele fora encontrado no banheiro totalmente drogado, durante o campeonato interno de futebol da escola.

Até aí, nenhuma novidade. Porém, cerca de meia hora depois, eu presenciei mais de 30 adolescentes trajados com uniformes esportivos, chuteiras, caneleiras e tudo mais chegando ao P.S. à procura de seu amigo. Fiquei observando todos eles entalados na porta, interpelando um único e solitário 'Acolhedor'  que tentava dar as informações. Tentarei transcrever um pouco do diálogo, mas os adolescentes falavam alto, enrolado e todos ao mesmo tempo:

- Queremos visitar o Felipe.

- Felipe... já sei, deve ser um garoto que foi encontrado bêbado no banheiro da escola e ...

- Sim, sim, é esse mesmo, em que quarto ele está?

- Não, não, ele não está em nenhum quarto. Ele está tomando soro na sala de observação e ...

- E como a gente faz pra chegar lá?

- Calma gente, o horário de visitas lá é à tarde e só podem entrar duas pessoas e ...

- Ah, então eu que vou entrar!

- Não, eu é que vou!

- Sai fora, eu é que vou!!

E começou a maior algazarra. Eles começaram a discutir entre eles quem iria entrar e o pobre funcionário não conseguia mais se fazer ouvir.  

Neste momento, passava pela porta do P.S. uma viatura da polícia que, ao ver a cena, imediatamente parou e desceram dois policiais:

- O que diabos está acontecendo aqui????

A segurança do hospital também chegou correndo pensando que era briga. Só então, finalmente, quando foi reestabelecida a ordem o 'Acolhedor'  conseguiu concluir sua explicação:

- Ham... Ham... Como eu estava dizendo, na sala de observação só podem visitar duas pessoas por dia e a família do paciente tem prioridade na visita. Portanto, vocês podem todos ir para casa, pois nenhum de vocês poderá ver o seu amigo hoje, já que os pais dele já estão chegando. Podem ir tranquilos que o Felipe está bem, ele apenas exagerou um pouco na dose. Qualquer dúvida, depois vocês telefonem para os familiares e peçam informações.

Já mais conformados, o batalhão de adolescentes começou a se retirar em direção à rua, sob o olhar atento dos policiais e dos seguranças do hospital. Mas ainda antes de sair, um deles se aproximou do funcionário e cochichou:

- Por favor, me diz que o Felipe vai poder jogar a final amanhã!?!

Pois é. Nós, adolescentes, somos muitas vezes desajeitados, rebeldes e impulsivos, principalmente quando estamos em grupo. Mas, por outro lado, é exatamente essa mesma energia que nos confere a capacidade de transformar o ambiente ao nosso redor. Para isso, precisamos ter responsabilidade, compromisso e respeito pelos mais velhos e pelos nossos próprios ideais. Que nunca deixemos de sonhar! Oxalá jamais percamos o vigor da nossa juventude!


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Escrito por Urick Mattos às 04h56 PM
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A história do "Remelinha"

Era bastante comum também a presença de jovens e adolescentes drogados com álcool ou mesmo substâncias mais "pesadas".  Alguns chegavam a se drogar nos banheiros do próprio hospital, principalmente à noite.

Mas um dos casos que mais marcou toda a equipe foi quando a equipe do Resgate trouxe um garoto de apenas 14 anos que estava à beira de um coma alcóolico. Pelos corredores de todo o Pronto Socorro eu ouvia funcionários comentando:

- Mas você viu que absurdo? O pobre menino foi embebedado por garotos mais velhos em sua própria casa. Os pais ainda nem sabem. A assistente social está entrando em contato com a família.

- Mas quem acionou o Resgate então?

- Os funcionários do prédio em que ele mora. E se fosse só a bebida... Sabia que ele ainda foi empurrado pelos colegas em cima de uma vidraça e cortou a mão?

Depois dessa eu resolvi dar uma de penetra e fui até a emergência. A curiosidade já estava me matando... como seria este garoto? Estaria ele muito machucado?

Porém, ao chegar na emergência, eis a surpresa: o tão falado paciente era meu vizinho!!!   

- Remelinha!!! Que mundo pequeno!

- Você o conhece? – indagou-me uma médica.

- Sim, doutora, ele mora no apartamento abaixo do meu.

- E como foi mesmo que você o chamou?

- Ah... Remelinha... na verdade o nome dele é Gustavo, mas a galera toda lá do prédio só o chama pelo apelido.

- Meu filho, eu não vou nem perguntar onde ele arrumou este apelido!!!

Pois é, lá estava o Remelinha, não conseguia ficar nem sentado. Os enfermeiros colocaram-no amarrado a uma prancha no chão, pois da maca ele cairia, com certeza. Apesar de ter apenas 14 anos, devia pesar uns 60 quilos. Para falar bem a verdade, eu nunca gostei muito daquele rapazinho, mas ainda assim resolvi ser um bom samaritano e ajudar. Fiquei acompanhando-o até a sua família chegar. O engraçado é que ele estava delirando, gritando um monte de bobagens que se perdiam nos soluços de seu choro, e só veio me reconhecer depois da segunda aplicação de soro com glicose na veia:

- Eu... eu conheço você... você é o Urick...

- É isso aí Remelinha, você tomou todas hoje hein?

Não houve resposta. O pobre coitado caiu em sono profundo enquanto o cirurgião costurava o corte em sua mão. Não precisou nem de anestesia. E o ronco do moleque era estridente!

Só sei que depois de tudo isso o Remelinha passou mais de 3 meses sem ser visto no prédio. Hoje já está tudo bem, ele voltou a freqüentar a quadra, o salão de jogos, mas ninguém nunca mais o viu chegar perto de uma garrafa!


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Escrito por Urick Mattos às 07h06 PM
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* A mídia também mata ?!?!?! *

Todo mundo viu a trágica morte do jogador de futebol do São Caetano que morreu devido a uma parada cardíaca no meio da partida nesta última quarta-feira . Não pretendo falar aqui sobre este lamentável fato em si, apesar que vi os cardiologistas e outros médicos do nosso hospital abismados  com o pééééssimo atendimento prestado ao atleta no momento fatídico (sei lá, vai que eu escrevo o que penso e sou processado... vão levar os meus órgãos como pagamento, porque dinheiro mesmo eu não tenho!!!).

Eu quero, na verdade, contar o estranho fenômeno que tenho presenciado lá no Pronto Socorro nestes dois últimos dias (afinal, este é o objetivo deste site!!!): aumentou escandalosamente o número de pacientes que chegam no P.S. reclamando de dor no peito!!!  E a grande maioria são jovens que mal completaram 23 anos. A equipe de Humanização, os 'Acolhedores'  estão passando por cada uma... Os pacientes chegam falando mais ou menos assim:

- Moço, por favor, me leve passe na frente na fila!

- Calma senhor, diga-me o que aconteceu?

- Estou com muita dor no coração.

O 'Acolhedor'  olha bem para o rosto do paciente, faz algumas perguntinhas de praxe a fim de identificar sintomas de um possível infarto, mas nada encontra. Ele tenta tranqülizar o paciente:

- Senhor, por tudo isso que você me disse, parece-me não é uma emergência. Inclusive, há muitos outros pacientes com a mesma queixa que o senhor, aguardando na fila.

- Mas você não entendeu, eu estou com uma puta dor no coração, bem aqui, olha só.

- Ouça, meu senhor, por favor não me leve a mal, mas se a dor é no coração por que você está com a mão na axila?

Nesta hora a avó de um outro rapaz interveio:

- Olha, mocinho, o meu neto teve uma parada cardíaca ontem à noite.

- É mesmo? E onde está ele?

- Bem aqui, do meu lado.

- hummm... o seu neto parece-me bem tranqüilo agora senhora. Tem certeza que era uma parada cardíaca?

- Claro que tenho, eu conheço bem essas coisas!

- Sei, sei. Mas diga-me, quem socorreu o seu neto ontem, durante a parada?

- Ninguém, ele se levantou sozinho!

O que mais me impressiona nisso tudo é o grande poder que a mídia tem para influenciar as pessoas e elas nem percebem isso. Esse poder poderia ser usado para um fim construtivo, ao invés de estimular o consumismo, a alienação, a exploração do sexo e da desgraça alheia.

Bom, mas enquanto sonhar ainda não paga imposto, vamos lutar por um Brasil melhor. Menos Televisão e mais Livros!!!


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Escrito por Urick Mattos às 01h55 AM
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